carros elétricos

“Há muito trabalho a fazer, mas não tenho dúvidas de que a transição para a mobilidade elétrica plena é um processo irreversível”.

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Henrique Sanchez é o Presidente da Associação de Utilizadores de Veículos Elétricos (UVE), recentemente reconhecida com o estatuto de Entidade de Utilidade Público. 4 anos depois de uma primeira entrevista voltamos à conversa para perceber o que mudou na transição para a mobilidade elétrica.
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Henrique Sanchez recebeu-nos para esta entrevista na sede da UVE, no Espaço Workhub Lx, em Marvila. É a partir daqui que a Associação presta apoio a todos os interessados em saber mais sobre mobilidade elétrica, uma realidade que mudou muito desde 2017, data de uma primeira conversa também ela sobre mobilidade eléctrica. E para perceber o que se passou neste intervalo de tempo, começámos por enquadrar o tema.

O que mudou na transição elétrica desde a nossa última conversa?

Henrique Sanchez. No momento da nossa primeira entrevista, as vendas de VE atingiram 4237 unidades, o que correspondeu a uma quota de mercado de 1,9%. Agora, 4 anos depois e já no final de 2021, o volume de vendas chegou às 26340 unidades e a uma cota de mercado de 19,2%. Ou seja, os valores como que multiplicaram por 10 o que julgo que responde à pergunta.

Sim, são números muito reveladores.... 

HS. Sem dúvida e há mais dados que ajudam a perceber o que tem vindo a acontecer na transição para a mobilidade elétrica no nosso país. Se olharmos para a rede publica de carregamento, vemos que nesse mesmo ano de 2017 surgiram 49 novos postos de carregamento. Hoje, temos 1000 postos de carregamento rápido e super-rápido e de mais de 6000 pontos de carregamento normal. Isto representa um aumento disruptivo. Em 2017 havia ainda poucos modelos de VE e as suas autonomias eram relativamente baixas – 200 a 250 km. Atualmente, a autonomia média é já de 400 km e existem cerca de 200 modelos de VE a serem comercializados. Foi um salto muito grande e que veio permitir às pessoas disporem de oferta com autonomia. O preço de aquisição de um VE também baixou ligeiramente.

“(...) será que que as pessoas têm a noção de que há cerca de 200 modelos disponíveis no mercado e 6000 pontos de carregamento em todo o país?”

Então, depois de um período de alguma estagnação, percebemos pelas suas palavras que o ano de 2017 marcou a retoma definitiva da transição para mobilidade elétrica...

HS. Sim. A mobilidade elétrica em Portugal deu os primeiros passos em 2011, mas esteve estagnada até 2016. A partir desse ano, com a abertura do corredor para o Algarve, com postos de carregamento a assegurar esse trajeto, tudo se desbloqueou. Agora temos carregadores em estações de serviço, supermercados, hotéis, etc. É verdade que a maioria dos postos de carregamento estão no litoral do país, mas a capilaridade da rede tem vindo a aumentar.

Podemos concluir que os portugueses já incorporaram a ideia e as vantagens da transição para a mobilidade elétrica? HS. Acredito que sim. Seja por moda, por preocupações ambientais ou por razões económicas está muita gente a chegar à mobilidade elétrica. A questão que se coloca neste momento tem que ver com a falta de informação. Pela atividade que desenvolvemos na UVE percebemos que as pessoas estão ávidas de informação. Inclusive, muitas vezes, os próprios comerciais das marcas não têm informação para esclarecer as pessoas que os visitam nos stands. Por isso, insisto, o desafio que temos pela frente é o da informação. Por exemplo, será que que as pessoas têm a noção de que há cerca de 200 modelos disponíveis no mercado e 6000 pontos de carregamento em todo o país?

“Na transição para a mobilidade elétrica Portugal está bem classificado entre os países da UE em indicadores importantes como número de carregadores por 100 km e venda de VE”.

E desse contacto com as pessoas, quais os aspetos mais seduzem os portugueses para mudar para um automóvel elétrico?

HS. Antes de mais, em termos gerais, os portugueses aceitam bem a tecnologia. Depois, sentimos que o fator económico e as questões ambientais são os aspetos mais sedutores. É que durante o confinamento as pessoas aperceberam-se do que é viver nas suas localidades  sem carros a combustão a circular. Sentiram o ar mais limpo e em muitos casos assistiram ao rejuvenescimento de diversos ecossistemas. Ou seja, essa experiência ajudou os portugueses a reforçar a sua consciência ambiental.

E quais são as barreiras que ainda impedem uma transição plena para a mobilidade elétrica? HS. Neste momento, como já referi atrás, a principal barreira é a falta de informação e mesmo alguma desinformação. Isto acaba por ser normal sempre que surge algo novo e disruptivo, que põe em causa o status quo. Quem estava instalado no antigo sistema, como os próprios construtores automóveis – que têm investimentos em fábricas de motores a combustão e em componentes – assim como as petrolíferas que vivem da venda de combustíveis fosseis, vai procurar tornar esta transição o mais lenta possível. Precisam de tempo para se adaptar, pois tudo isto tem impacto nas suas empresas e nas pessoas que lá trabalham. Por exemplo, ao fechar uma fábrica ou uma refinaria é preciso perceber o que se vai fazer às pessoas que lá trabalham.

Mas mudar os hábitos das pessoas, a habituação ao longo de gerações aos automóveis a combustão, é algo difícil de mudar... HS. Sim. A parte mais difícil é mesmo mudar os hábitos das pessoas. Se toda a vida usámos carros a combustão, se sempre fomos abastecer combustível a uma bomba de gasolina, se estamos familiarizados com o cheiro a gasolina, com a condução com caixa de velocidade...para quê mudar? Por isso digo que é muito importante as pessoas experimentarem guiar um carro elétrico. Não temos dúvidas de que se passarem por essa experiência vão ficar seduzidas. E julgo também que daqui a alguns anos, as novas gerações vão ficar surpreendidas só de imaginar que os seus pais e avós usavam carros que poluíam o ar, que cheiravam mal e deixavam manchas de óleo no chão das garagens ou dos lugares de estacionamento.

“Seja por email ou por telefone a UVE está disponível para prestar todos os esclarecimentos necessários a qualquer pessoa interessada na mobilidade elétrica.”

E as diferentes instituições ligadas à mobilidade elétrica, têm feito o seu papel? HS. Tudo isto é muito novo e instituições como Mobie-e, Erse, Ministério do Ambiente e Ação Climática foram-se adaptando a esta nova realidade. A mobilidade elétrica é algo que quer tudo feito para ontem. Por exemplo, não era possível estar 12 meses à espera que a EDP Distribuição (atualmente E-Redes) fizesse uma ligação de um ramal a um posto transformador. Esse período de tempo tinha de ser encurtado e foi interessante perceber como a própria EDP Distribuição decidiu autonomizar a sua unidade para a mobilidade elétrica, que passou a responder com uma eficiência completamente diferente. Por seu lado, enquanto regulador, a Erse tem um papel fundamental e há aspetos na lei que podem ser melhorados. Desde logo, permitir a produção de energia em centrais fotovoltaicas, com o excesso a poder ser vendido para a rede em condições satisfatórias para o investidor. A Mobie-e surgiu como projeto piloto, mas acabou por durar oito anos. Quando toda a rede começou a ser concessionada a privados a Mobie-e deixou de operar esses postos de carregamento e assumiu então a sua vocação de entidade gestora.

Ao longo desta entrevista senti-o muito otimista quanto à irreversibilidade desta transição para a mobilidade elétrica... HS. Sim estou muito muito otimista. O nosso trabalho junto das pessoas mostra-nos que se trata de um movimento irreversível. O cidadão comum já percebeu que há vantagens evidentes – económicas e ambientais - em optar por automóvel elétrico. Há cada vez mais modelos disponíveis e com maior autonomia. Há também mais postos de carregamento o que é fundamental. Ao mesmo tempo, é uma evidência de que se trata de um fenómeno global e que as próprias metas para a descarbonização estão a acelerar. Trata-se, naturalmente, de algo novo e dinâmico. Há muito trabalho a fazer, mas não tenho qualquer dúvida de que a transição para a mobilidade elétrica plena é um processo irreversível.

Publicado a 21 de janeiro de 2022

21 de janeiro de 2022
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